O MEU PRIMEIRO EMPREGO.
Foi em um Mercado Municipal de determinada cidade que trabalhei com o seu Júlio, conhecido como ”Zóinho”, porque seus olhos eram muito entortados. Ele era tão vesgo que conseguia com um olho cuidar do peixe no aquário e com o outro enxergar o gato sorrateiro, quando o malandro ainda se encontrava no lado oposto do ambiente. Sorte do peixe e azar do gato ! Eu contava com uns oito ou nove anos de idade e até hoje, passados mais de cinquenta anos, não consigo esquecê-lo, e nem quero que isto aconteça. Parece que foi ontem que o vi pela primeira vez. Era de uma ternura tão grande que se deixasse sua barba crescer bastante, facilmente passaria por um Papai Noel. Nunca soube qual era sua idade, mas esse quesito também lhe favorecia para se passar por aquele simpático velhinho, tão presente nos natais. Usava óculos de aro fino com lentes grossas para amenizar seu desvio visual. Era lépido acelerado e sempre mantinha um largo e cativante sorriso no rosto. Com certeza ele gostava da vida e a vida gostava dele. Era uma pessoa feliz. Logo aprendi a não olhar diretamente para seus olhos porque, como criança que era, sentia vontade de rir, o que só conseguia conter com muito sacrifício.
Naqueles anos ainda não existia um Órgão para
zelar pelo cumprimento dos direitos da criança (Conselho Tutelar) de sorte que com
aquela idade virei vendedor de frutas,
legumes e verduras no Box que ele tinha no citado Mercado. Referia-me a ele
sempre como “seu” Zóinho. A gente deve
mostrar respeito para com o patrão.
Fui trabalhar lá porque para o meu pai, havia chegado minha hora de comparecer ao caixa, para ajudar no minguado orçamento doméstico da família, uma vez que ali, como para todos que seguem o calendário gregoriano, o mês sempre acabava no dia trinta ou trinta e um, mas o dinheiro acabava muito antes, por volta do dia dez.
Trabalhava pela manhã e a tarde estudava frequentando o primeiro ano da turma “B”, que era a destinada aos mais cabeçudinhos. Meu livro de cabeceira e de balcão, quando o movimento estava fraco, era a poderosa cartilha “Caminho Suave”. Mas sou obrigado a confessar que para mim aquele caminho não era tão suave não. Vamos dizer que ela não demonstrava muita simpatia por mim e nem eu por ela. (cabe aqui uma menção de louvor àquela fantástica Cartilha e quem a concebeu, a professora Branca Alves de Lima. Ela vem sendo adotada desde o longínquo ano de 1948, está em sua 132ª edição, com o alfabetizado de mais de 48 milhões de brasileiros).
O seu Zóinho sabia de minhas limitações intelectuais e, nas horas que não havia movimento de fregueses no Box, pacientemente me ajudava a resolver os pavorosos exercícios do “ABC” do alfabeto, e a dificílima arte de contar até cem. Acudia-me quando tentava entender a diferença entre os números pares e os ímpares. Como se não bastasse tudo isso, ainda me ensinava identificar e contar o dinheiro. Não era pouca coisa não! A parte do dinheiro era a que ele mais se empenhava. Acho porque tinha interesse próprio, pois acontecia com frequência eu receber pelo pagamento das mercadorias e perguntar aos fregueses a quantia que devia devolver de troco. Era por essa e outras que estava no primeiro ano “B”. Hoje sei que sofria do transtorno de déficit de atenção. Na época nem minha mãe e nem a professora sabiam o que isso significava.
Admirava-o muito por ter tanta sabedoria. Se naquela idade eu já soubesse da existência de um Albert Einstein, não teria a menor dúvida em equiparar a sabedoria de meu patrão com a dele. Para mim era um verdadeiro intelectual. Saber o alfabeto de cor e contar aqueles dificílimos números!? Não era para qualquer um não! Minha mãe sabia contar mas não dominava o alfabeto. Meu pai não lidava muito bem com essas ciências de alto nível. Costumava levar várias canetas bic de diferentes cores em seu bolso da camisa, mas não usava nenhuma delas – não sabia escrever. Começava a perceber que no primeiro ano primário eu já era mais “estudado” que eles dois.
Minha rotina naquele Box exigia grande versatilidade e facilidade de adaptação. Executava ali várias tarefas. Primeiro ajudava abastecer as prateleiras com frutas e legumes, depois atendia os fregueses, mantinha o local sempre bem varrido e encerrava a manhã limpando o “escritório” de seu Júlio antes de ir para a escola. O tal do escritório era tão pequeno que só caberia três pessoas ali se uma delas ficasse de perfil.
Zóinho era também um homem de visão
futurística. Nosso Box de frutas e verduras deve ter sido pioneiro no sistema delivery e no self service.
Explico: como nossos fregueses habituais eram formados em sua maioria por donas
de casa conhecidas, quando elas estavam
com pressa deixavam apenas um bilhete anotado com as mercadorias que queriam,
cabendo a mim a posterior entrega dos itens escolhidos em seus domicílios usando
uma cesta velha. Este era um dos
serviços que prestávamos, e que agora é conhecido pelo pomposo nome de “delivery”. Quando Zóinho estava no “escritório” (no cubículo),
e eu muito ocupado e agitado por atender mais de um freguês ao mesmo tempo, alguns
deles ajudavam, escolhendo a mercadoria que lhes agradavam e deixavam o valor
devido na própria prateleira. Era o nosso sistema self service. Por isso
ninguém pode negar quando afirmo que Zóinho, além de muito sabido era também um
homem com larga visão do futuro. Era um empreendedor. Se conseguisse comprar o Box anexo - que pertencia a um empastelador chinês que queria vendê-lo - poderia mandar imprimir um cartão de visitas com os dizeres: 'PASTÉIS E FRUTAS DO ZÓINHO' - Proprietário - O próprio" - Ficaria muito chique. Ele merecia. Não via a hora.
É bem verdade que ele apresentava também algumas singularidades, mas tudo bem, todo gênio tem alguma maluquice. Ele não era exceção. No início das manhãs passava seus olhinhos míopes por um antológico Almanaque da Farmácia, para saber o santo do dia. Diariamente acendia uma vela para seu titular. Fiquei até sabendo que havia um São Doroteu. No dia deste santo e no dia de São Júlio. as velas eram maiores. Velas de primeira. (Nota: devo dizer adotou o 2 de setembro, dia da santa Doroteia, porque o São Doroteu não tinha sido agraciado com um dia exclusivo dele. (achei um grande desaforo daquele almanaque!) Com igual ardor ele consultava com frequência um outro esfarrapado livrinho de bolso, usado na interpretação de sonhos. Era para jogar no bicho. Costumava fazer suas apostas nos famosos bloquinhos “Vale O Que Está Escrito” no boteco do Ceará, que ficava nas proximidades. Raramente ganhava, mas não desistia. Ficava contente quando ele ia ao bar porque sempre me trazia uma ou outra guloseima, geralmente marias-moles e pés de moleque, doces que me apetecem até hoje.
O grande problema era quando estava passando por suas fases de melancolia. Dizia que se devia a um antigo amor não correspondido. Fazia lembrar o alocado Dom Quixote de La Mancha em busca de sua apaixonada donzela Dulcinéia de Toboso, que só existia no imaginário dele, no clássico universal de mesmo nome, do fabuloso Miguel de Cervantes. Nesses dias ele não se contentava de ir ao bar só para efetuar seu inocente joguinho e comprar meus doces. Aproveitava também para tomar alguns “rabos de galo”, depois ligava um velho rádio-radiola que mantinha no “escritório” e ia lidar com seu borocoxô estado de espírito, ouvindo músicas nas quais o personagem principal sempre acabava arando a terra, usando seus próprios chifres para executar esse serviço.
Ele tinha um disquinho compacto do Waldique Soriano, que se destacava. Para quem não lembra ele é o autor e cantor da conhecida música “Eu Não Sou Cachorro Não”, que era o ápice do estilo brega. Aquele bendito pequeno vinil estava quase furando de tanto que trabalhava.
Certa vez me livrou de uma grande enrascada na escola, onde eu sofria bullying, embora esta palavra à época ainda não estivesse em voga como está hoje... Se bem que fiz por merecer isso.
Aconteceu porque nunca respondia o “presente!” quando a professora, na hora do ritual da chamada, em voz alta dizia o nome de um certo ‘Derotheu” e ninguém respondia. Vejam o que aconteceu: meus pais me batizaram com um nome (Raimundo. ai!) e me registraram com outro - Derotheu. (ai! de novo.). Para piorar tudo em casa eu era chamado de “Raimundo” – ai! ai! - , com direito ao seu diminutivo (Raimundinho – ai!,ai!,ai!). Logo, por óbvio para mim Raimundo era o meu nome. Pois é, vai daí que a professora nunca dizia esse nome (Raimundo Gonçalves da Silva) quando fazia a checagem de quem estava ausente. E quando chamava Derotheu eu não respondia. E levava falta. Acho que não era à toa que eu estava enturmado no primeiro ano “B”. A professora foi então até a casa do “Derotheu”, para avisar sua mãe que ele estava sistematicamente faltando às aulas, e deu de cara comigo, tentando resolver os apavorantes exercícios de soma e diminuição (hoje seria adição e subtração) que ela havia passado como tarefa de casa em sua última aula. O Raimundo era o Derotheu! Coube ao seu Zóinho me convencer que meu nome não era Raimundo, e sim Derotheu. (coisas que só aconteciam comigo). Toda essa confusão teve origem lá atrás, quando meu pai foi me registrar, provavelmente também com uns rabos de galo na cabeça.
Numa outra situação o que ocorreu foi puro bulliyng também. Meu professor de educação física sempre me deixava fora do time de futebol mirim. Era porque eu não tinha o famoso conga azul, calçado para esportes da marca alpargatas, possivelmente o avô dos atuais tênis. Presenteou-me com par deles novinho em folha.
Com muito esforço e graças às velas acendidas por ele em louvor a São Doroteu, fui aprovado no exame final daquele ano escolar (em segunda época!). Na prova de matemática não consegui contar até o número cem, mas cheguei bem pertinho, fui até o número trinta e um. Na avaliação de português, com uns garranchinhos consegui escrever o meu novo nome (é bem verdade que saiu um “Dereteu” – expressou o sentimento que devia estar passando naquela hora. "Deretendo" mesmo, por conta do excessivo esforço cerebral que fiz para ativar meus neurônios) Mas naquele dia fiz mais, escrevi quase todas as letras vogais (parei no “O”. Ficou “A”, “E”, “I”, “O” “...”(?). E para o espanto da professora fui capaz de copiar a frase “A laranja é de Lili”. Mas não recebi um cem com honra ao mérito, porque com alguns rabiscos, “sintetizei”, ficou “Laranja delili". Podia não saber ler e nem escrever, mas que eu era bom em síntese ninguém podia negar. Só fiquei triste porque não fui ascendido ao segundo ano primário; apenas considerado apto para cursar de novo o primeiro ano, só que desta feita na turma “A” (dos mais sabidinhos). Mas segundo Zóinho foi um baita progresso, um verdadeiro “Upgrade” (embora eu não soubesse o que isto significava, tinha certeza que se tratava de um glorioso elogio). E como ele era muito sabido nem tentei argumentar. Podia não ser um sábio, mas que era muito sabido era.
Depois disso trabalhei com ele por mais uns seis meses, mas continuava a
visitá-lo com frequência. E não era pelos doces não, embora ele sempre tivesse
com um a minha espera. Numa dessas visitas encontrei o Box fechado. Os vizinhos
de Banca (do pasteleiro chinês) informaram que há alguns dias atrás ele fora encontrado morto no
“escritório”, com o radinho ainda ligado nas musicas feitas sob encomenda para fazer a alma de qualquer um doer.
Provavelmente tenha sido vencido pela sua antiga estrondosa paixão, não correspondida pela
sua “Dulcinéia”, que de forma tão marcante passou pela juventude dele. Só os afortunados que já tiveram a felicidade de encontrar uma donzela dessas em seu caminho sabem do que estou falando, Quer elas tenham sido suaves como apregoa o título da cartilhinha, quer tenham sido tempestuosas e avassaladoras, como foi a do inesquecível Zóinho...
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