MEU PATRÃO FAZIA JOGO DO BICHO!
O ”anexo” da Cantina era um apertado
ambiente e um diminuto banheiro, que fazia questão de se dar bem com sua fechadura emperrada. Não era
recomendável trancar a porta por dentro, pois corria-se o risco de ficar preso. Até hoje me pergunto
como um homem do tamanho de Krauss cabia ali. Talvez tirasse o vaso
sanitário para poder entrar. Não sei.
Era mais um destes inúmeros mistérios da vida.
E era também naquele quartinho que funcionava a camuflada banca de jogo do bicho, onde os milicos mais afoitos faziam suas apostas. Quando o casal estava muito ocupado cabia a mim o preenchimento dos tradicionais bloquinhos “Vale o que está escrito”. Aprendi logo sobre a engenhoca daquele jogo. Coisas ilegais a gente aprende com uma rapidez espantosa. Comecei vendo como Krauss fazia e em muito pouco tempo já era versado no assunto. Era a máxima do macaco: ‘Macaco vê. Macaco faz !”. Por sinal o grupo do macaco era o 17. Ô memória boa sô! E pensar que estudei no primeiro ano “B”. Os pedagogos efetivamente não sabem avaliar o potencial de um garoto de rua.

Mas voltando à história que estou contando, Herr era de uma peculiar esperteza burra (o grupo do burro é o número 3!), um verdadeiro malandro agulha, que é aquele cara que se acha muito esperto, mais esperto do que a todo mundo, mas que sempre acaba tomando no buraco da agulha, no fiofó. O acidente responsável pela perda de seu carro, com direito a gessos para as pernas como brindes, com certeza foi um sutil aviso da Divindade para que ele tomasse jeito na vida, mas não adiantou. Vejam o que aconteceu. Certa vez um cabo chamado Peter (Peterrr !), sonhou com um cunhado e jogou quase todo seu soldo (era o dia do pagamento) numa milhar seca, resultante da combinação com as dezenas do grupo 24, o grupo do veado.
A milhar era o número 9394 (Não acredita ? Eu falei que minha memória é invejável). Se desse essa milhar “na cabeça”, no primeiro prêmio, o bicheiro pagaria 4.000 vezes o valor apostado. Daria para ele comprar não apenas a cantina, mas o quartel inteiro. Herr preencheu o bloquinho da aposta, mas seus olhos cresceram frente ao valor apostado e, ao invés de mandar o jogo para o bicheiro, embolsou o dinheiro. E adivinhem o que aconteceu ! Deu a milhar 9394 no primeiro prêmio da Loteria Federal naquele dia. Foi um rolo danado.
O cabo Pierre queria receber sua pequena fortuna e quando soube do golpe de que fora vítima, primeiro quis testar a eficácia de sua arma usando o coração de Herr como alvo (ele ficou vários dias sem aparecer na Cantina – sensatamente saiu da cidade). O cabo Pierre não foi estúpido para procurar o bicheiro – ele com certeza teria uma “patente” maior que a sua e provavelmente também um pequeno arsenal de armas, distribuídas entre seus capangas – mas foi bobo o suficiente para prestar uma queixa contra o foragido Herr junto ao Comando do Quartel. Foi pior: instauraram um Inquérito Policial Militar contra si pela pratica de jogos de azar. E como se tratava de crime militar (ocorrido em Unidade Militar), o bicheiro foi convidado a conhecer as instalações da cela que existia ali, onde mesmo com um certo desconforto para os dois, sobrou também um lugar para o “esperto” Krauss, que mudou seu endereço para lá por alguns dias.

E continua...
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