JOÃO CRENTE E O HALLOWEEN.

Nossa casa tinha um pequeno quarto que alugávamos e João Crente era o inquilino. Grande amigo de meu pai. Nordestino bem nutrido. Um pouco mais escurinho que nós. Não era pejorativo não. Simplesmente era conhecido assim. Ele gostava. Também trabalhava na construção civil. Boa praça. Sorriso fácil. Riso do coração. Pouco mais de trinta anos. Sem família, morou conosco algum tempo.
Com ele aprendemos que a felicidade pode andar dos lados opostos da vida. É que o João passava por uma verdadeira metamorfose ao final de cada ano. Tinha até data marcada para ocorrer. Coincidência ou não, era sempre na véspera do dia de Todos-os-Santos. Dia das bruxas, quando o Halloween ainda não fazia parte de nossa cultura.
No primeiro semestre do ano, seu quartinho era um brinco. Minúsculo guarda-roupa sempre bem arrumado. Ali tinha lugar reservado o terninho preto e a Bíblia. Embaixo da cama, uma pequena mala, muito simples, sempre fechada.
Naquela mala estava a raiz do problema. Pelo mês de julho ou agosto, ele cuidadosamente a tirava de seu esconderijo e passava horas a contemplá-la antes de dormir.
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Por aí também já começava acompanhar meu pai em suas saídas para as noitadas de sinuca. Faltava a um ou a outro culto evangélico. O pastor e as outras ovelhas já ficavam de olho. Conheciam bem o irmão João.
Em setembro, abria a mala. Tirava dali seu uniforme profano. Uma calça boca de sino branca, um cinturão à lá Elvis Presley, corrente “tremendão”, camisa listrada e bem colorida. Pedia que minha mãe lavasse tudo.
Nessa época, começava também a descuidar do impecável terninho preto e volta e meia a mulher do pastor passava em casa para deixar a Bíblia que ele esquecia na igreja.
Então chegava o fatídico dia das bruxas. Nesse dia um alegre João pedia que minha irmã mais velha passasse sua “roupa do rei.”
Era a senha. A partir dali, o paletó preto e a Bíblia, ritualisticamente embalados, iam para a mala embaixo da cama. E lá ficavam até 31 de dezembro.
O João se voltava então de corpo e alma para as coisas mundanas. Era final da década de sessenta. Auge da Jovem Guarda. Cinturão com uma baita fivela, cabelo estilo black power, corrente dourada no peito... essas coisas. Não podia ser melhor para ele. O universo parecia conspirar a seu favor. Nessa onda seguia até o final do ano.
Uma coisa, contudo, não mudava: seu jeito afável, carinhoso com todo mundo e muito querido pelas crianças. Em períodos de religiosidade ou de gandaias, para nossa alegria sempre voltava para casa com os bolsos recheados de guloseimas.
Mas certo dia não voltou. Meu pai disse que na última vez que o vira ele esta pedindo permissão ao encarregado para ir comprar cigarro no bar, um pouco antes do café da tarde.
Saiu da construção com seu macacão, fechou o fiado no boteco da esquina e seguiu dali em direção ao ponto de ônibus. Nunca mais foi visto.
Ficamos muito tristes. Minha mãe lavou, passou e guardou seu “uniforme de rei” lado a lado com o terno e a Bíblia. Não foi um ato profano, não. Fez certo. Eram as duas faces que traziam, cada uma a seu jeito, um bálsamo para o diferente psiquismo daquela maravilhosa criatura que era João Crente...
Muito bom
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