DE MÉDICO E LOUCO TODO MUNDO TEM UM POUCO.

Há uns dois anos atrás em razão de alguns distúrbios neurológicos, fui internado uma segunda vez em um determinado hospital por trinta dias, com o “brinde” de passar dez deles na estigmatizada Ala Psiquiátrica, que costuma ser injustamente rotulada de forma negativa por habitualmente ser atrelada à figura do “doidinho de pedra”.
Por sinal foi lá que soube pela psiquiatra que tal expressão idiomática se dá porque antigamente os loucos nos manicômios eram submetidos a tratamentos com uma excessiva medicação em comprimidos, daí o apelido “pedra” - de comprimidos –.
Hospital psiquiátrico também é cultura!
Fiquei igualmente curioso para saber o significado de “louco varrido”, mas ela educadamente disse que não podia responder porque não sabia o que queria dizer... Fiquei intrigado, não sei se não quis responder ou foi com a intenção de me poupar... Talvez com o temor de que com sua resposta eu pudesse concluir que me encaixaria como uma luva naquele perfil, o que com certeza não faria bem para o meu tratamento. Melhor deixar aquela indagação sem resposta quieta. Aguas passadas.
Mas este não é um compêndio médico, é apenas um registro sobre alguns “companheiros de pensão” que encontrei quando dos meus intermináveis dez dias “hospedado” naquele local.
Como dizia o memorável personagem Odorico Paraguaçu – a quem o também inesquecível Paulo Gracindo deu vida – Deixemos os “entretantos” e vamos logo aos “finalmentes”.
Fui internado numa noite de sábado, na semana anterior à páscoa, porque via pessoas que não existiam. Bem, podiam não existir para os outros; para mim eram verdadeiras e bem presentes. Mas, um dos objetivos aqui é falar sobre o Pastor fujão.
Na minha primeira noite naquela ala fiquei num quarto que mais parecia uma cela, com outros dois pacientes, também ruins da cabeça. Pois é, lá pela madrugada comecei a perambular sozinho pelos corredores, acompanhado por imagens irreais de um monte de gente. Era uma verdadeira procissão. Como estava sob efeito de medicação forte, as pernas não obedeciam muito aos comandos. Resultou que sofri uma queda feia. Machuquei as costas e, não sei como foi aquilo, me feri também com um feio corte no supercílio direito.
Como sangrou muito foi um verdadeiro pandemônio, com direito a médica de plantão sendo acordada e enfermeiros agitados e nervosos, temerosos de serem responsabilizados...
Depois de socorrido fui colocado numa cadeira de rodas e transferido para a “suíte”. Já conhecia tal quarto, que por sinal não tem nada de suíte. Estivera ali quando de internação anterior. É o nome pejorativo dado pelos internos. Consiste num minúsculo cubículo com dois leitos, destinado a pacientes cadeirantes, fragilizados, ou muito problemáticos. No caso destes últimos era simples eufemismo para dizer que eram bem ruinzinhos da cabeça mesmo.
Notei que em sua porta estava estacionada outra cadeira de rodas, com uma surrada Bíblia em cima. E o seu provável titular se encontrava em uma das camas, roncando e balbuciando palavras ao mesmo tempo. Não sei como conseguia tal proeza.
No dia seguinte fiquei sabendo que ele se auto intitulava ‘pastor” e dizia ouvir vozes diretamente de Jesus, determinando-lhe que ‘salvasse’ as vinte almas perturbadas daquela ala do hospital.
Isto era verdade, éramos mesmo perturbados. O grupo era composto por uma metade de vencidos pela vida por dependência química e a outra em razão de patologias neurológicas diversas.
E mais, o Nazareno havia lhe dito para iniciar sua santa “missão” de conversão pelas ovelhas desgarradas mais próximas. Sob medida para mim, que no amalucado entender dele, mais próximo que dividir o mesmo quarto não precisava.
Assim, como não conseguia sair da cama, passei a primeira semana ouvindo pregação e mais pregação da santa Palavra.
Pastor, além de ter decorado quase toda a bíblia, fazia bem seu papel de missionário. Mas, verdade seja dita, tinha também outros predicados. Um deles era a velha e má praga do suborno – no caso dele corrupção ativa.
Mesmo naquela ala que era totalmente fechada aos visitantes externos, com a consequente proibição da entrada de qualquer gênero alimentício (a única exceção foi no domingo da páscoa), ele transformara seu criado mudo numa verdadeira despensa. Como estava com problemas de espaço físico disse-me que o Senhor mandou que lhe cedesse o meu criado de cabeceira, o que fiz sem pensar duas vezes, sem pestanejar. Meu grau de loucura ainda não era grande o suficiente para negar de cumprir uma ordem dada pelo Messias (não este “messias”, aquele Messias). Para minha sorte a medicação já estava começando a surtir efeito.
Ele mantinha estocado ali balas e
outros doces; alguns pães com manteiga amanhecidos cuidadosamente embrulhados
em guardanapos, além de algumas frutas, daquelas que ocasionalmente eram
servidas como sobremesa.
Sabe-se
lá onde ele conseguia abastecer tamanho estoque, que lhe serviam como
verdadeiras moedas de troca. Eram distribuídas para quem se predispusesse ir ao
seu, ou melhor, ao nosso quarto para ouvir a Palavra do Salvador.
Era bom de lábia e bem visto por seus convertidos. Eu, para eles era tido como alguém “salvo”, pois afinal de contas já estava ao lado direito do “escolhido”. É bem verdade que minha cama ficava à direita da dele, com certeza devia ser por isso.
Por ocupar uma posição tão privilegiada logo comecei a receber as mesmas benesses que ele. Não dependíamos mais dos enfermeiros para pequenas coisas como ajuda para empurrar nossas cadeiras; auxílio para ir ao pátio na hora do banho de sol ou enfrentar fila na hora das refeições. Nessas ocasiões sempre aparecia um de seus fiéis disposto a ajudar e lembrar aos “não salvos” que tínhamos prioridade nesses momentos.
Nada como ser amigo de um ungido!
Então comecei a observar que Pastor, em suas pregações, sempre se reportava a Dimas, o bom ladrão, cujo nome sequer é mencionado pelos evangelistas (há menção apenas na obra apócrifa de Nicodemos). Curioso perguntei-lhe o porquê daquela preferência. Sua resposta foi rápida e singela: “em um passado recente”, respondeu ele com gíria de presidio, “já estive em cana por ter “puxado um carango” e quando meu barraco caiu estava ainda com dez “bagulhos” e um “João meia dúzia” comigo.
– “Hãn?”.
Vendo meu olhar de ignorante virou os olhos para cima, respirou fundo e esclareceu para saciar minha ignorância: estive preso por roubo de carro e pela posse de maconha e de um revolver. Simples assim. Tudo certo então.
Ele chegou a pensar em fazer um batismo coletivo para seus novos convertidos, usando a água da pia do banheiro como se ela fosse proveniente do rio Jordão e não da Sanepar, mas não sei porque razão a médica o proibiu, alegando que para tamanho evento o Salvador precisaria combinar os detalhes diretamente com ela. Não aceitaria intermediários, mesmo que este fosse feito por uma pessoa tão “especial” como ele (de novo usando de eufemismo para chamá-lo de doido em seu grau máximo de doidura). Ele não se fez de rogado, imediatamente tentou convertê-la, mas não obteve êxito.
Acho que a coitada já havia passado por situações semelhantes com outros
pacientes parecidos com ele. Sem pensar muito caiu fora. Decidiu enfrentar a
ira de Deus a ser convertida novamente naquela ala. Pastor passou então a
se referir a ela como “dra. Pagona”. Pagã
não, “Pagona” mesmo. 
E assim os dias foram passando. Demoradamente passando. E o número dos convertidos por ele aumentando. Conseguiu até arrebatar para Jesus o coração de um enfermeiro, aliás o que foi muito providencial para a “suíte”.
Nossas roupas de cama e os agasalhos-pijamas passaram então a serem trocados duas vezes por dia (desnecessariamente) e a roupa de cama sempre era mantida impecável, principalmente a dele, que também era usada como banco para seus seguidores.
Verdadeiro tratamento Vip. Quando acionávamos a campainha da enfermagem por uma ou outra necessidade qualquer sempre era ele quem imediatamente nos atendia.
Minhas alucinações começaram a cessar. Não sei se em resposta à medicação ou se de tanto ouvir a Palavra que pastor extraía de sua inseparável bíblia.
Mas, verdade seja dita, ele era bom como pregador. Às vezes fazia seus “cultos” para cinco ou seis almas espremidamente sentadas em sua cama ao mesmo tempo. Dizia-se neo-pentacolista, embora desconfiasse que ele não soubesse muita coisa sobre aquela vertente do evangelicalismo. Mas não fazia mal, invocando ou não o Espírito Santo, seus fiéis facilmente entravam em verdadeiro barulhento êxtase. Talvez também por conta dos psicotrópicos que vinham tomando. Não sei. Procurava não meditar muito a respeito.

Naquele domingo de páscoa minha família carinhosamente enviou dois pequenos bolos, suficientes para dividir com os outros internos da ala. Nunca consegui entender e nem explicar como, talvez pelas mãos do enfermeiro recém-doutrinado, um deles foi parar na suíte, destinado exclusivamente ao pastor e seu sacristão mor, ou seja, este que continua vos falando. E pior, o outro ficou só para quem já tivesse aceitado a Palavra. Quando souberam que o mimo foi cortesia de minha família, adquiri prestigio perante eles. Gostaram da falsa ideia de que aquele poderia ser um ato frequente.
Bem, dizem que nenhuma situação dura para sempre. As boas e principalmente as que são ruins.
Após algum tempo recuperei parcialmente os movimentos das pernas. Embora claudicando e com alguns espasmos musculares - que duram até hoje - conseguia andar.
Saí da suíte e fui transferido para outro quarto. Infelizmente com as outras duas camas ocupadas por pacientes que não eram tão divertidos como pastor e seus seguidores e passavam o tempo todo se lamuriando da doença – não conseguiam descer da própria cruz. Mas para tudo há um jeito. Tinha apreendido a arte da inocente corrupção com pastor (embora não exista uma que possa ser classificada assim), comecei a dividir com os dois minha mistura das refeições, que sistematicamente era carne de frango – comida pela qual sempre tive verdadeira ojeriza. Nos tempos de namoro antes de qualquer coisa perguntava à felizarda escolhida: “Você gosta de carne de frango?”. Para ver se havia afinidade.
Mas voltando ao que estava dizendo, meus novos companheiros de quarto, por conta do diário pequeno aumento na guarnição de suas refeições não me perturbavam e pude distrair-me com a leitura de um livro que não era a Bíblia. Mas, confesso que senti muita falta dela e de seu fiel pregador.
Pastor, ficamos sabendo, naquela páscoa conseguiu fugir daquele “búnquer” hospitalar usando um jaleco de enfermeiro – deve ter considerado o sentido literal da palavra páscoa: - “passagem”.
Como conseguiu fazer aquilo sendo cadeirante não sei. Talvez tenha contado com a ajuda de alguma de suas ovelhas, ou quiçá tenha sido agraciado com um dos milagres que em sua bonita fé apregoava.
Tenho ainda muitas anotações sobre minha jornada por lá, mas fica para uma próxima crônica. Por hora já falei demais... Isto não saiu uma crônica como pretendia, saiu um conto.. Obrigado pela paciência em me ler...
Continua...
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