A SEGUNDA INTERNAÇÃO !

 

 

 

    A  noite de sábado até então estava sendo normal. Jantei uma comida leve,  Li alguns capítulos de um romance água com açúcar e fui dormir. Logo após ser tomado pelo sono, acordei abruptamente. Tinha uma jovem e uma criança no meu quarto ! Saíram do nada. Do nada não, de dentro do meu guarda roupa. Com  certeza   não se tratava de pesadelo  pois dei uma olhada de vesgueio pelo ambiente. Estava mesmo no quarto. Até meu gato Folgado continuava seu sono aos pés da cama. E as duas criaturas ali, na minha frente. Fiquei apavorado porque moro sozinho. Com medo consegui balbuciar um  “saiam daqui !”. Fizeram ouvidos moucos.  Começaram a rir.

   Como há mais de semana minhas sobremesas vinham sendo substituídas por um coquetel de seis ou sete comprimidos, alguns deles de tarja preta, minha ex mulher, que mora com nossos meninos numa  residência contigua a minha, achou prudente me manter trancado em casa durante as noites. Para minha maior segurança, dizia ela. Provavelmente  prevendo eventuais efeitos colaterais que os psicotrópicos poderiam causar, já que prescritos para patologia neurológica. E causaram!   Faltou ela combinar com os russos! Estava tomando fortes alucinógenos e não sabia. Acho que se uns dois ou três comprimidos daqueles fossem fragmentados seria o suficiente para fazer um garrafão grande do Chá do Santo Daime. Para  provocar tamanho estrago colateral, com  expansão de memória e ativação de  determinadas áreas da visão (Alucinação), deveriam ser derivados da própria erva Ayahuasca.

     O fato é que lá estava eu com duas pessoas estranhas  no quarto, reais ou imaginárias, trancado com elas e sem as chaves da casa. Situação bizarra ! O gato parecia ter tomado os mesmos comprimidos que eu tomei, pois na minha imaginação  tinha certeza que ele  também conseguia vê-los. Foi ronronar nos pés do menino fantasminha com aparentes oito ou dez anos de idade. A moça fantasma devia estar na casa dos vinte ou vinte e cinco.

      Precisava fazer alguma coisa. Nem que fosse sair correndo dali. Foi o que fiz. Fui para a sala, onde fica o telefone. O gato ficou lá, socializando  com seus novos amigos. No desespero liguei para a ex-mulher. Ocupado ! Tive a mesma sorte (ou falta dela) com os celulares dos meninos. Desligados! E agora ? Não tive dúvidas abri a janela,  mas percebi que não podia escapar por ali porque era gradeada. Mas dava para  frente da casa deles. Gritei por socorro, em vão, não ouviram. 

    De repente o cenário começou mudar: no meu devaneio via ela e os meninos dando uma animada festa na garagem deles. Os “meninos”,convém seja esclarecido, são dois bem nutridos jovens universitários – pai é pai. No meu imaginário conseguia até ver que na festa, que estava bastante alegre,  ninguém usava mascara para se proteger contra a eventual e não esperada presença de um convidado penetra chamado Covid.

 

 

 

 

 

            Desesperado como estava resolvi ligar para a Polícia Militar, afinal ela apregoa o lema “Servir e Proteger” E só Deus sabia o quanto precisava de proteção naquela hora. Só eu, o gato não. Ele estava se dando muito bem com seus novos amigos (traidor!). Sempre gostou de socializar com as pessoas, estranhas ou não. Mesmo com aquelas que costumam morar em guarda roupas.

   Expliquei ao Policial Militar que me atendeu sobre a situação em que me encontrava. Não acreditou, não sei por que motivo. Do quadro que expus a ele ficava fácil de entender, mas ele raciocinou da seguinte forma: “um maluco que afirma estar trancado numa casa com dois fantasmas, e que sua ex-mulher levou as chaves com ela”. Uma situação tão corriqueira! Não sei por que as pessoas dificultam tanto as coisas. Depois de umas nove outras ligações, ele finalmente jogou a toalha. “Como no momento não tenho o telefone de nenhum Caça-Fantasmas que esteja de plantão, vou lhe passar o número da guarda municipal”. Fiz o que ele recomendou.

   Quem me atendeu ali foi um guarda com vocação para ser policial:. “Sim,  entendo a perigosa situação em que o senhor se encontra”. “Vou ver aqui qual a viatura que está nas  proximidades de sua residência  e pedir a ela que passe aí com a máxima urgência”. ”Mas enquanto isso o senhor permaneça no cômodo que está agora, e não vá tentar exorcizá-los sozinho usando bíblia ou água benta (se usar água benta  quando esborifar neles o cheiro de enxofre pode lhe causar desmaio), esses seres são muito perigosos, mas nossos policiais são treinados para agir em situações como essa.” “Eles já vão chegar aí, no máximo em uns trinta minutos”. Fiz o que ele mandou e fiquei longe do quarto enquanto esperava a viatura salvadora. Apenas não entendia uma coisa, se eram tão perigosos por que o gato insistia em aprofundar a amizade com eles? Aguardei mais ou menos uns quarenta minutos, que pareceram uma eternidade (só quem já passou por situação semelhante sabe o que é isso). Quando ouvi o som da sirene se aproximando fiquei mais tranquilo. Mas pelo estridente som, aparentava ser duas e não apenas uma viatura. Os fantasmas que queriam me atacar deviam ser perigosos mesmo. Quando vi através da janela eles chegando foi confirmada minha teoria que eram duas as viaturas. E eram, um carro de polícia e uma ambulância com dois fortes enfermeiros.

 

 

  Fui imobilizado (no estado que estava nem precisaram fazer uso de camisa de força), que pelo sim, pelo não, tinham uma desdobrada e prontinha para ser usada, no interior da ambulância. Fui levado para uma unidade hospitalar onde fiquei internado por quinze dias, para o chamado alinhamento da medicação. Quando retornei para casa tentei encontrar aquele guarda na sua guarnição (Guarda Municipal),  mas foi inútil, não consegui. Ele precisava pelo menos de um sincero agradecimento, mas talvez algum dia esta  pequena crônica venha a ser lida por ele, porque é a ele que ela homenageia, por ser um profissional muito bem treinado, que fez uso de uma fantástica psicologia e de grande  intuição. A ele o meu muito obrigado..

Ps: por via das duvidas tenho procurado manter aquele guarda-roupa sempre sob chave, é que ultimamente o gato tem rosnado muito para suas portas. Sei não...

 

 

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