Padre Zico ( Conto que recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, agraciado com sua publicação pela Secretaria da Cultura – Pr.)
Era dia de festa em Bororó. Festa grande. Depois de quatro longos anos, chegava o novo padre. Pouco se sabia a seu respeito. O bispo fora breve na notícia. Era o seu jeito de lidar com Bororó. Breve nas notícias e demorado nas decisões.
Aquela sempre fora uma paróquia problemática. Sua primeira e última visita ao local foi marcante. Ocorrera havia mais de dez anos mas continuava inesquecível. Por mais que tentasse se livrar das impressões daquele dia, não conseguia. Todo o povo de branco na estação ferroviária. No lugar das habituais bandinhas municipais, o inédito som dos atabaques. Em vez de hinos religiosos ou cívicos, apenas os famosos “pontos de umbanda”. E regidos por uma senhora de pele escura e idade muito avançada.
Lá atrás, muito atrás, o tímido padre Bento, com seus oitenta e tantos anos, ao lado do prefeito.. Batina batida pelo uso diário e noturno, sorriso infantil – talvez até meio divertido. Podia jurar que até ele estava cantarolando “…chegou o Pai Ubá, Nosso Pai Ubá chegou…”. Pai Ubá ! Tanto na Itália, como burocrata no Vaticano, quanto nesta terra abençoada, primeiro como sacerdote de uma capital e agora como bispo daquele fim de mundo, já recebera vários títulos, honoríficos ou não. Mas “Pai Ubá” nunca havia imaginado.
Com aquela inédita recepção,
procurou rapidamente apressar a volta para o refúgio de seu confortável
palácio episcopal. Mas os horários do trem, apenas a cada dois dias,
estavam acima de seu poder temporal. E foram dois longos, longos dias…
Talvez por isso, com a morte, havia mais de três anos, de padre Bento,
apenas agora decidira pela nomeação de padre Zico para aquele recanto,
onde o tratamento de Sua Eminência fora reduzido a um simples “PAI
UBÁ”.
Quando o trem chegou conduzindo padre Zico, a cidade parou de novo. A curiosidade era geral. Quem o grande Pai Ubá teria enviado para substituir o querido padre Bento ?
Os atabaques, como sempre, se puseram a trabalhar. Mãe Lena logo fez os últimos reparos na comitiva de recepção. Essa parte também era com ela. Na frente as crianças, depois os jovens e por último a ala dos velhos. Todos de branco e, bem ensaiados, mostrando seus cânticos antigos, herdados dos antepassados escravos.
Padre Zico era jovem. E inexperiente. Recém-saído do seminário, aquela seria sua primeira paróquia. No vagão, ao lado de poucos passageiros, procurava relembrar todos os rituais de etiqueta e convívio social que aprendera. Cumprimentar primeiro o prefeito, os vereadores, depois as damas. Manter sempre um sorriso de poucos dentes e semblante sereno e de poder.
. Sabia pouco de seu novo rebanho. O bispo fora muito vago nas informações. Cidade pequena, antiga colônia de escravos libertos. Enfim, almas boas. Dissera ainda alguma coisa sobre um pequeno sincretismo religioso que imperava no local. Quando quis saber mais a respeito, não obteve resposta. Ficou com a impressão de que Sua Excelência demonstrara certa pressa, talvez até mesmo um pequeno nervosismo.
Atribuiu à sua própria inexperiência de jovem, demonstrando insegurança ante a primeira paróquia. Enfim, achou normal. Enquanto relembrava esse rápido encontro, pareceu-lhe ouvir o som intermitente de atabaques. Talvez algum músico da banda municipal, um pouco mais empolgado, afinando seu instrumento de percussão. Olhou pela janela enquanto o trem lentamente parava e viu… foi quando percebeu que fora nomeado não para uma paróquia, mas para um grande centro de umbanda.
III.
.
Surpreso, viu aquela figura retornando de um sono profundo no último banco. Barba de cinco anos e chinelão nos pés, idade de ancião, que logo lhe trouxeram à mente a figura de Antônio Conselheiro, por sinal filho daquela região. O gato logo pulou no mesmo banco, demonstrando tratar-se de amizade antiga.
– O povo daqui estava rezando muito pela sua chegada.
– Sei, sei –
mas é melhor que nos apresentemos primeiro. Sou o padre Zico e estes
bancos parece-me que foram feitos para os fiéis rezarem.
– Ah ! seu
padre. Não leve a mal não, é que eu moro aqui. Fiquei cuidando da casa
de Deus depois da partida do padre Bento. Mas pode ficar tranquilo que
nunca dormi naquela cama lá dentro. Faz mal para a minha coluna. Colchão
muito macio. Sabe como são estas coisas. Prefiro dormir por aqui mesmo.
– Disse que mora aqui !? Na igreja ?
– É. O padre Bento deixava e Deus também nunca reclamou.
– Respeito com as coisas sagradas, por favor.
– Não falo por mal, seu padre, mas dizem que é a casa Dele, não é ?
– Tá bom, tá bom… Mas vamos dizer que agora Ele mudou de idéia. Não quer mais você nem o gato morando por aqui.
– Vai dar não, seu padre. Eu e o Mialzão aqui somos do tempo do padre…
–
Já sei, já sei. Do bondoso padre Bento…. Mas agora precisamos
reorganizar as coisas. Além de ser alérgico a gatos, não gostaria de ter
também o senhor morando em tempo integral em minha igreja.
– Sua não, seu padre. De Deus…
– Pois é. Mesmo assim, aqui é lugar para oração e não moradia.
.
Mialzão e Profeta – este era o apelido do morador clandestino – eram daqueles que não tinham muita paciência para discutir sobre as propriedades de Deus na terra. Antes de terminar a conversa, um voltou a dormir, agora acompanhado pelo outro, no mesmo banco. Padre Zico, vendo que não tinha jeito, ignorou suas presenças e passou parte da tarde conferindo cada detalhe da bela igrejinha. Chamou sua atenção o fato de estar tudo estranhamente muito limpo e arrumado. Notou que até os canteiros da horta estavam bem cuidados, com várias hortaliças plantadas.
– Vejo que o senhor também se apossou de minha cozinha.
– Sua não,
padre. De Deus. E estou cozinhando para o Mialzão. Às vezes ele permite
que eu também coma com ele. Talvez hoje ele abra esta exceção para nós
dois… vamos esperar para ver o seu humor.
– Sei. A propósito, quem
vem cuidando tão bem das coisas por aqui ? Tudo tão limpo, tão
organizado. E também tenho curiosidade em saber sobre a despensa, de
onde vêm os mantimentos.
– Quem cuida das coisas de Deus por aqui sou
eu, padre. E os gêneros alimentícios para as refeições de Mialzão vêm
da prefeitura e da nossa pequena horta. Por falar nisso, amanhã preciso
visitar o prefeito de novo. O azeite e toucinho de que o Mialzão tanto
gosta estão pelo final.
– É, agora ele vai ter um convidado a mais diariamente, não é verdade ?
–
Não sei, padre. Como disse, vai depender dele. Com essa conversa da
tarde sobre isto ser de Deus, aquilo dos fiéis, aquilo outro do padre…
Não sei não. Acho que ele deve ter ficado meio ofendido.
– Por falar nisso, não estou vendo o felpudo folgado por aqui. Será que ele levou minha recomendação a sério e já se mudou ?
–
Fique tranquilo, padre. Ele só aparece quando a mesa já está servida. É
impaciente. Não gosta de esperar no pé do fogão como os outros gatos.
–
Tá, tá. Já vi que minha alergia vai ter uma séria recaída para o
futuro. Mas, apenas por curiosidade, qual é o cardápio do… como é mesmo o
nome dele?
– Mialzão.
– É, qual o cardápio do Mialzão para hoje ?
– Rosbife, acompanhado de uma salada com legumes frescos e algumas gotinhas de vinho.
– Bom gourmet esse Mialzão. Vinho também via contrabando da prefeitura ?
–
Não, padre. Vinho de Deus. Daquele bom mesmo. Ainda do estoque do
falecido padre Bento. Mas, como o Mialzão anda bebendo um pouquinho a
mais ultimamente, acho que nosso estoque vai durar pouco… Ainda mais
agora, com um convidado a mais diariamente.
Quando o último talher foi posto na mesa, Mialzão materializou-se
janela adentro. Rosnou para Profeta, miou com indiferença para o padre e
foi direto para sua tigela de suculento rosbife, ao lado do fogão.
Padre Zico não se conteve e começou a rir sozinho daqueles dois
personagens. Verdade seja dita, o cozinheiro do gato conhecia bem de
culinária.
.
Enquanto jantavam, Mialzão, já saciado com duas pequenas tigelas cheias de rosbife, fazia a digestão dormindo embaixo da mesa. Padre Zico começou a observar então que Profeta tinha uma inquestionável sofisticação. Sabia lidar com destreza com os talheres, apanhava o guardanapo pela ponta correta, e – quando não estava satirizando – era eloquente e com uma erudição que procurava ocultar. Mas não falou nada de sua vida pregressa. Apenas morava ali, era também o sacristão e responsável pelo convites para as missas. “Convite para as missas ?”. “É, padre, aqui é assim. As pessoas só vêm à igreja quando são convidadas. Têm outra fé, entende ?” “Não, e nunca tinha visto isso ! Quer dizer que amanhã cedo eles não virão à missa dominical ?”. “Só se forem convidados”.
.
Mialzão não abria mão de seus direitos. Não houve vassoura forte o suficiente para expulsá-lo dos pés da cama. Padre Zico, quando viu que não tinha jeito, cedeu. Não era como demonstração de amizade felina não. Apenas uma questão de direito adquirido. Sempre dormira ali, desde os tempos do padre Bento e não era agora que iria sair. Simples assim.
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